sexta-feira, 20 de abril de 2018

Que este amor não me cegue nem me siga.


lukrecja czerwonajcio

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Autor : Hilda Hilst
in 'Cantares do Sem-Nome e de Partidas'

quinta-feira, 19 de abril de 2018

...

erik johansson

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Autor : Paulo Leminski

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dá-me a tua mão

omar ortiz

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 17 de abril de 2018

Aos Filhos


Ashraful Arefin

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames.

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Autor : Manuel António Pina
in "Um Sítio onde Pousar a Cabeça"

domingo, 15 de abril de 2018

Cogitações

Ezgi Polat

é só e apenas mais um dia,
em que os sentimentos explodem dentro de mim,
porque, por fora a calma reina
num corpo ausente de afectos
mas dócil e perfeito,
pois as cicatrizes finas
ninguém as vê .

hoje, lembrei da passagem da ponte,
todos os dias, o ir e o vir
só que não sei se no outro dia,
quando vieste pela outra ponte,
foi engano,
ou tão somente para esticar
o tempo em nós.

não sei, e também nunca te irei perguntar…

Autor : BeatriceM 2017-04-07

sábado, 14 de abril de 2018

Cantiga do ódio

Ashraful Arefin

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Autor : Carlos de Oliveira
in 'Mãe Pobre'

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que amamos está sempre longe de nós:

Cristina Fornarelli

O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

Não necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escuridão.

Autor : Cecília Meireles
in 'Solombra'

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Poema para iludir a vida

Ashraful Arefin

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.

O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.

Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.

Hoje é o dia de amanhã.

Autor : Fernando Namora
in "Mar de Sargaços"

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Reflexos

Ezgi Polat

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.

Autor  : Ana Luísa Amaral

terça-feira, 10 de abril de 2018

linhas cruzadas

laura makabresku

tomaste-me a mão
como quem toma o coração
e sobre a pele
desenhaste linhas de vida
numa linguagem
que aprendi a soletrar.

olhei-te nos olhos
e todas as palavras
até aqui usadas
foram por mim esquecidas.

Autor : LM_14.fev.2018
https://poesiaaremar.blogspot.pt/2018/02/linhas-cruzadas.html