quarta-feira, 28 de junho de 2017

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Agnieska Motyka


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Livro Sexto'

terça-feira, 27 de junho de 2017

Poesia Depois da Chuva

       Laura Lee Zanghetti
 A Maria Guiomar 
Depois da chuva o Sol - a graça. 
Oh! a terra molhada iluminada! 
E os regos de água atravessando a praça 
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer. 
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. 
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça. 

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar. 

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado 
antes do Sol, não duvidava agora.) 
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual 
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. 
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... 
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...) 

Autor : Sebastião da Gama
in 'Pelo Sonho é que Vamos'

domingo, 25 de junho de 2017

...

josephine cardin

ninguém precisa ver  as minhas lágrimas, são espontâneas e derrapam
desgovernadas como um rio sem foz
assim,como a minha tristeza, a raiva a aflição
a dor mesmo que exposta é e será sempre anónima...

Autor : BeatriceM

sábado, 24 de junho de 2017

É isto o Amor

Montserrat Gudiol

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Autor : Nuno Júdice
in 'Pedro, Lembrando Inês'

sexta-feira, 23 de junho de 2017

São horas de voltar

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Autor: Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O silêncio só raramente é vazio

Neil Driver

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

Autor : José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 21 de junho de 2017

...

Liat Aharoni


Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim, e passa
sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.
Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta
entre ti e mim, e está comigo.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 20 de junho de 2017

um dia

Victor Bauer Art

um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo

lá fora o meu desejo assassina o mundo
a noite não existe porque a deixaste
no movimento de pedra dos meus braços

daqui onde estou quem te era
não se vê nada do amor

Autor:Pedro Sena-Lino
zona de perda livro de albas
objecto cardíaco, 2006


sábado, 17 de junho de 2017

Serenata

Maja Tocagic

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Autor : Cecília Meireles

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Homem

tommy ingberg

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

Autor : António Gedeão
in 'Movimento Perpétuo'