domingo, 10 de dezembro de 2017

Sonhos

by Evan Raditya Pratomo

apago todos os vestígios,
dos assassinos de sonhos,
e fico com as estrelas,
a recordar  os meus  devaneios 
de criança.
.
Autor : BeatriceM 2013-12-15



sábado, 9 de dezembro de 2017

Sombras


Voltam-se as sombras sobre nós
coisas soltas, costumes muito antigos
acompanham-nos os gestos desde perto,

desenham figuras nas paredes.

A casa sossegou, o vento veloz
Em cada recanto obscuro faz jazigos
onde se perde o olhar antes aberto.

Crescem líquenes, raros musgos verdes.
As janelas fecharam-se, vazio

o quarto. Perguntas por fazer
suspendem-se da voz

para sempre remetida ao seu silêncio.
Nada pois a temer,
sombras somos nós.

Autor:Bernardo Pinto de Almeida
Foto:dudeusz

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Na casa antiga, cada um de nós levava

Diggie Vitt
Na casa antiga, cada um de nós levava
consigo um candeeiro, com que arrastava
o seu duplo de penumbra e de sombra.
A chama do petróleo ardia junto à boca,
podíamos devorar a própria luz.
Chamas nos queimavam as entranhas
e em archotes vivos nos tornaram,
vagueando por corredores e por escadas
atrás do Outro, que nada nos dizia.

Autor : Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Último Poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Autor : Manuel Bandeira

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Das palavras

Natália Drepina
Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!

Autor : Alice Queiroz
In“Jardim de Afectos”

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Este Inferno de Amar

Diggie Vitt

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Autor : Almeida Garrett
in 'Folhas Caídas'

domingo, 3 de dezembro de 2017

Quero partir e ficar


Elena "Kassandra" Vizerskaya



A manhã pariu um dia por onde  fundeio nos acinzentados serpenteados  no horizonte
Os barcos partiram  sem mim
O oiro do meu cabelo desfez-se na brisa que o mar  semeou
E o tempo esvai-se
Que parem todos os relógios do mundo
Que eu quero partir e ficar
.
BeatriceMar

sábado, 2 de dezembro de 2017

Leve

Kyle Thompson

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

Autor : Mário Quintana

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Exausto



Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Autor : Adélia Prado

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

interiores


Ionut Caras

chove na manhã de todos os silêncios
iluminada pela bruma que penetra
a janela
a casa é um santuário no recolhimento temporário
o cão presente olha para mim
sentado, à espera da habitual refeição
mas é ainda tão cedo
e, não fora ele, a realidade escapava-se da minha mão
assim, o dia acordou
os pássaros voam e chilram
as goteiras dos beirais e varandas
produzem a música
e o isolamento acabou.
ah! guardei o beijo matinal
recebido
habitual
com que o dia começa
sempre diferente
sempre igual.

Autor : LuísM Castanheira