terça-feira, 17 de outubro de 2017

Praia

Laura Lee Zanghett

Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar

teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas

braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu

e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

domingo, 15 de outubro de 2017

Partilha

Vera Rockline

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor: BeatriceM 2011-03-06
(reeditado)

sábado, 14 de outubro de 2017

De Longe

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

..

Lindsey Kustsuch
Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo que parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

Autor : Alice Alves
in O que doí às aves

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

....

Ionut Caras

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
.
Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.
.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

Autor : Mia Couto
in Idades Cidades Divindades

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O Amor

Cristina Fornarelli

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei

Autor Sophia e Mello Breyner Andresen
in O Cristo Cigano

terça-feira, 10 de outubro de 2017

...umas vezes falavas-me dos rios

Escha Van den Bogerd
umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia

outras vezes velava-te uma lâmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava

outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias

nessas vezes a água do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia

              Autor : Carlos Nogueira Fino

domingo, 8 de outubro de 2017

esquece


esquece os dias antes e depois de nós,
mas não esqueças o meu nome.

não digas que não sabes de mim,
não negues as noites que foram nossas.

muita coisa podes não querer  lembrar,
mas um corpo nunca se esquece.

Autor : BeatriceMar
26-05-2013
(reeditado)

sábado, 7 de outubro de 2017

Quase de nada místico

Paul Fried

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.

Autor : Ana Luísa Amaral
in às vezes o Paraíso

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Completas

Ildiko Neer

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Autor  : Manuel António Pina
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”